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Devemos nos preocupar com a desaceleração da China?

22/10/2021

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A China entra num momento muito delicado: os dados econômicos do país estão frustrando agentes econômicos do mundo todo. A despeito de aquela nação que crescia, todo ano, a dois dígitos não existir mais (já é consenso), por que, ainda assim, os mercados se mantêm inquietos quanto ao país asiático?

Para responder a esta pergunta, é interessante entender o momento atual. Desde 2001, com a crise causada pelo ataque às torres gêmeas do World Trade Center, o governo chinês tem lançado mão de políticas fiscais e, principalmente, monetárias muito expansionistas. Metas ambiciosas de crescimento eram seguidas por grande liberação de recursos aos governos das províncias, que, focadas em obras gigantes de infraestrutura, eram beneficiadas por mão de obra abundante e barata, além do aumento da produtividade causado por um êxodo rural no qual trabalhadores viviam, praticamente, de subsistência. É obvio que o crescimento também foi baseado em investimentos em tecnologia e educação, mas isso é uma outra história...

Este conjunto de políticas expansionistas incentivou as empresas a se endividarem para crescer. A soma de uma demanda pujante e taxas de juros muito baixas são a chave para negócios se alavancarem no mercado de crédito. Hoje, empresas não financeiras na China têm uma dívida próxima de 125% do Produto Interno Bruto (PIB). Tal fato suscita um perigo latente: a qualquer momento, se houver enfraquecimento de demanda – ou aumento nos juros –, pode haver quebra generalizada e comprometimento da economia.

Neste momento, o governo, ao detectar a ameaça, procura reverter o quadro em duas frentes: na primeira, reduzir as políticas econômicas menos expansionistas e, em algum momento, até contracionistas. E o crédito mais difícil e caro tem como objetivo desincentivar as empresas a se alavancarem. No segundo front, pressiona o processo regulatório – de uma hora para outra e de maneira radical –, a fim de evitar exposição a dívidas.

Assim, todo este processo pegou muitos negócios de surpresa. O primeiro setor a sentir sérias dificuldades foi o de construção civil. Não eram raras as imagens de cidades inteiras construídas antes mesmo de serem habitadas. O segmento se alavancou ao extremo: só a Evergrande, tema de um artigo anterior neste espaço, acumula passivos de mais de US$ 300 bilhões, maior do que o PIB de muitos países. Com as restrições do governo chinês, muitas empresas do ramo já enfrentam dificuldades na hora de honrar pagamentos, minando o crescimento do país, uma vez que o setor é extremanente relevante para a formação do PIB.

E este é apenas um aspecto: envolvido num plano de common prosperity, ou “crescimento para todos”, o governo se envolveu em brigas com grandes companhias do país. Tudo isso tem um componente econômico: o excesso de poder por parte destas empresas. Ainda há um elemento político: o desejo do governo de perpetuar o seu domínio – e, para isso, precisa do apoio da classe média. O regime “compra” esta batalha a fim de amenizar a subida do custo de vida deste estrato social. O problema é que as empresas (Tencent, Alibaba, Didi, setor de educação privado) estão entre as mais produtivas da economia, ou seja, brecá-las significa, também, abrir mão do crescimento.

Um terceiro fator que limita o desenvolvimento é a crise energética. A instabilidade diplomática com a Austrália, o maior exportador de carvão para a China, além das novas regras duras do governo em direção à energia limpa, deixou o fornecimento de energia muito irregular. Já existem relatos de companhias funcionado apenas dois ou três dias por semana – e grandes conglomerados urbanos com racionamento.

Isso sem contar os já conhecidos efeitos da descontinuação na cadeia produtiva, causada pelas guerras comercial e tecnológica com os Estados Unidos (decoupling) e pela pandemia de covid-19. Faltam chips no país, e, para piorar, o país asiático não detém a tecnologia de produção e itens mais avançados.

Todos estas condições compõem o que os economistas chamam de “tempestade perfeita”. O crescimento do PIB chinês no terceiro trimestre caiu com força para 4,9%, contra 7,6% no segundo trimestre – e as previsões para 2021 já estão abaixo de 8%. Para os próximos, abaixo de 6%, dado que os fatores descritos neste artigo não parecem que sofrerão mudanças no curto prazo.

Como tudo isso pode nos afetar? Por dois caminhos: o primeiro é a queda na renda advinda das exportações, principalmente de grãos e carnes. A China é o maior parceiro comercial do Brasil desde 2009 – no ano passado, gerou um superávit comercial de US$ 35,4 bilhões. Nos primeiros seis meses deste ano, o país chinês importou US$ 47,2 bilhões em produtos brasileiros, seguido pela União Europeia, com US$ 17,8 bilhões.

A segunda direção: com a queda nas exportações, há menos entrada de dólares na economia, o que pressiona ainda mais o câmbio, gerando compressão na inflação e obrigando o Banco Central (BC) a manter os juros altos. O resultado: contração econômica. Sem contar que uma crise maior no setor imobiliário pode afetar a confiança dos agentes mundiais em países em desenvolvimento.

Portanto, acompanhar de perto as mudanças chinesas é vital para entendermos como todas estas oscilações podem influenciar a nossa economia. Os canais entre os países são muito fortes, e qualquer alteração ocorrida lá pode ser sentida por aqui. E com força. Infelizmente, cenário mundial parece ser cada vez menos favorável.


Fonte: Contábeis

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